Avante!

O primeiro cabelo branco tinha aparecido há alguns anos, descoberto por aquele sujeito de falar chiado que sempre se achou divertidíssimo com trocadilhos péssimos que funcionavam para ganhar concurso cultural de marca de biscoito, sobre quem ela não podia ouvir falar hoje em dia. Pediu pra que o tipo fizesse uma boa ação em lugar de marcar “seu cabelo branco – hahahaha”, que arrancasse o fio e sumisse com ele em algum lugar da imensidão do “o que ela estaria fazendo ali?” daquele quarto.  Depois de meia dúzia de piadas sem graça, ele o fez. E, tal qual assombração, o fio branco, já fora da cabeça, reaparecia em momentos distintos. Ela agarrou o branco, abriu a janela, mirou Copacabana, e pensou: vá e não volte, ó, tentativa de crepúsculo da minha juventude!

O tempo correu, um branco ocasional pintava vez por outra no meio daquela cabeleira mais vasto que a mata atlântica, segundo definição de companheiro muitíssimo mais gentil. Havia desenvolvido uma incrível técnica de autoengano: arrancava o fio e assobiava para o vento, assim como se nada tivesse passado. Aprendeu com uma amiga que o nome disso era “fazer a egípcia” e você pode aplicar quando o mundo está caindo ao redor e se está bastante seguro de não querer participar da piração do outro. Basta segurar a cara de paisagem, não esboçar manifestação como se o gato que come o rato que roeu a roupa do rei de Roma tivesse comido também sua língua. Sobre a origem da expressão, nunca havia buscado em um tratado de filologia, mas pensava nas imagens de egípcias absortas trabalhando no alinhamento perfeito das mãozinhas, como se nada além fosse realmente considerável. Era assim que lidava com o um fio branco de vez por outra, assegurando a sua desimportância.

Eis que foi articulada uma rebelião interna por tantos anos de ignorância do filho único branco. Nenhuma técnica advinda do Egito Antigo daria conta de lidar com o que estava por vir. Foi organizar o lado esquerdo da cabeleira com um grampo e saltaram três. Ainda assustada, ela resolveu mexer do lado direito, como quem tem medo do que pode encontrar. Veio daí um curtinho, recém-nascido, que ela arrancou com pinça antes de sair na noite de sexta levando três irmãos saudáveis no pacote. Tentava gerir a crise assim, fio a fio, pois, nessa altura do campeonato, qualquer preocupação excessiva poderia virar pé de galinha.

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