Para meu quadradinho

Brasília,

Talvez eu nunca te agradeça o suficiente por ter carimbado de vez o meu passaporte da autonomia nessa viagem que começou lá em Mato Grosso. Foi o coração do Brasil quem cuidou do meu. Numa cidade com tanta reta, descobri que eu não tinha a menor obrigação de ser linear. Com seus seis meses de seca e outros seis de água, aprendi a curtir o que tem pra hoje. Ainda que tenha me visto reclamando da seca para, um mês depois da virada da estação, dar uma lamuriada diante da chuva. Perdoa, Brasília, é que sou muito humana e precisei logo do concreto para realizar isso.

Já desgostei de você algumas vezes, já tentei te analisar em outras tantas. E você, tal qual um parceiro que pressente a iminência do rompimento e tenta reverter o quadro, me aparecia com aquela imagem que me fazia pensar que a nossa relação estava no caminho do altar ao descortinar o panorama Catedral, Esplanada, Congresso. Era eu querer terminar, dona Brasília, que a senhora safadamente tratava de colocar aquele pedaço do Eixo Monumental diante de mim, em noites fresquinhas. Eu abria os vidros do carro, cantava bem alto o que tocava no rádio e sentia o coração em paz.

Eu me lembro de atravessar a 107 Norte dando uns saltinhos com minhas amigas na faixa de pedestre ao ficar risonha de Beira Bier pela primeira vez. Era tão bom não conhecer ninguém e, ao mesmo tempo, já ter tanta cumplicidade com aquele bando com quem eu cresci junto nos últimos três anos. Nós nos cuidamos quando os tempos foram difíceis, celebramos tanta coisa boa e sobrevivemos (sem multa) aos meus vizinhos que faziam reclamações dos nossos encontros para o Seu Orlando alegando haver “muita felicidade no 202 A”. Poderia haver elogio maior?

Espero que meu novo lar, lá no Rio de Janeiro, possa receber acusação semelhante. E espero que você esteja sempre aqui pra mim, com esse céu que é seu mar, essa lindeza de chapar as gentes e que cuide da minha trupe candanga com o amor que eles merecem até nosso próximo encontro.

Foto de Augusto Areal
Foto de Augusto Areal
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7 comentários sobre “Para meu quadradinho

  1. Brasília já se rebelou contra mim me punindo com uma safada crise de sinusite por ter te deixado partir… Mas, se o mar-céu de Brasília foi incapaz de apaziguar esse coração enorme que existem nesses seus cento e sessenta e poucos centímetros, talvez seja mesmo o mar-mar do Rio que vai te tornar completa e realizada.
    Por aqui, permaneço com um coração já apertado de saudades e com meus dedos cruzados pra que seu novo caminho seja repleto de sucesso, de amor e de realização – e, claro, deixo abertas as portas de um quarto aconchegante pra quando você quiser se recarregar de amor ou quiser assistir novamente ao mais lindo pôr-do-sol que há…

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