Mi Cuba querida

Acabo de voltar de Cuba e sinto-me feliz como um perdiz. Fui estudar roteiro por duas semanas na Escola de Cinema de San Antonio de Los Baños e, ao fim, ganhei tanta cena bonita pra película desta vida que ainda não sei como mover-me na que deixei aqui. Cuba não é só para os fortes, como também para quem vai de coração aberto. Ademais um deslocamento espacial, na ilha viajamos no tempo. E diante das dificuldades de comunicação via Embratel, nos ligamos ao outro que está do lado com uma intensidade de emoções que só a antiguidade proporciona nos encontros agendados pelo Whatsapp, confirmados pelo telefone, desmarcados pela falta de tempo.

A escola é uma ilha dentro da ilha. Habitada por quem aposta que viver faz mais sentido porque “a arte nunca dorme”, como registrou Francis Ford Coppola num dos grafites das paredes da EICTV. Para estar perto disso, vale a pena encarar as rãs que frequentam os dormitórios do primeiro piso, a comida do refeitório que é uma variação entre gordura de porco e coxa de frango sem frango, a inexistência de guardanapos e a raridade da presença do papel higiênico e de sabão nos banheiros. Tentei um equilíbrio interno: entre meu idealismo que vai pra esquerda; aquilo que estava posto e não é tão apetitoso quanto o Che fumando charutos de canto de boca; o que encaminha pra minha parcela julgamento express; e o que eu sentia de fato. Vivi coisas que me caíram muito bem, mas também tive uma cota saco cheio de tudo que é simples em qualquer lugar se tornar um tema por lá.

Pensei minha relação com o consumo e em quanto o que faço hoje pode estar me estrangulando por uma sensação de segurança que talvez nem seja tão segura assim. Admirei gentes, pela valentia, pela capacidade realizadora, por um ato. Reencontrei Jade, que foi um dos presentes que meu trabalho me deu e que deu uma banana para o trabalho após uma passagem meteórica que serviu como poupança para um sonho e foi para Cuba fazer o curso regular de três anos na escola. E que tinha acabado de ganhar da Elie, a amiga uruguaia, um vinho da vinícola do Coppola. Cozinhávamos na habitação da Lari, éramos tantas. Ainda assim, não houve hesitação ao abrir e compartilhar o vinho. Como não houve em dividirmos o pitoresco dormitório da Casa Pátria com a Rosane em Havana, uma brasileira pra lá de querida, mas até então desconhecida. Como não houve grilos em compartilhar sessões de terapia com o Xavi, uma piscina olímpica de gargalhadas com o Hugo, um noite no hospital com a Imma, os cafés com o Edu, um passo de dança com o Lucas, um gnomo David de sonhos.

Volto sentindo uma gratidão enorme e com a certeza de que ninguém foi feito para nada mais ou menos. Como diria meu maestro Sacha, há que ser fulllll (com o “l” prolongado dos hispanohablantes no inglês). Vida plena para nosotros, quem é de cá e quem é de lás!

Havana, a hora mágica e um teto intrometido
Havana, a hora mágica e um teto intrometido
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12 comentários sobre “Mi Cuba querida

  1. Minha cabeludinha predileta.
    Bom retorno, fico feliz com o resultado do seu curso…afinal vc chegou e já escreveu para nosso deleite.
    Ler suas crônicas é uma alegria, consigo imaginar tudo que vc escreve.Obrigada por repartir suas experiências.Beijo carregado de saudades.

    • Amorilda,

      Não quero mais tanto tardar nisso que também me faz tão feliz. Obrigada por ter sempre apontado e referendado esse caminho.

      Amo você! E que a gente se encontre logo, para uma conversa embalada por mojitos e charutos.

      Beijo igualmente saudoso

    • Roberta,

      Feliz com Dogville? Quero ver sua foto. Ainda que não tenha havido a hora mágica do sol dando lugar pra lua, o cenário estava igualmente encantador, não?

      Breve estarei aí, pode colocar o gelo na forminha porque estou chegando com o rum.

      Beijo grande e au-au-au

  2. Sensacional Naroca! Experiência espetacular. Um dia vou para aquelas bandas.
    Como sempre, escrevendo crônicas que dão prazer de ler, desde o longínquo Aprendiz.
    Apareça mulé!
    Beijão!

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