A geografia do afeto

_ Eu fui lá pra Beagá. Senti um negócio desses que a gente sabe o que é, mas não explica fácil. Foi numa sexta-feira, foi de passagem, foi rapidinho, foi desse jeito que é, nem bem chega, já dá meia volta.

_ O possível?

_ Sim, o possível. Tinta tanta gente na rua, como podemos esquecer que isso de esbarrar em gente pode ser até bom? Subimos a rua da Bahia e passamos por aquele versinho bom de estar.

_ “Minha vida é esta: subir Bahia, descer Floresta”.

_ Não seria mais fácil que nossas cidades fossem definidas, sei lá, pelos cartógrafos? Teríamos nos mapas a Rafalândia, a Laralândia, e esses lugares não implicariam a perda do que ficou no outro?

_ É, acho que não dá. Isso de achar nosso lugar é difícil, né?

_ Principalmente quando a gente se vê entre um montão deles. Ai, sabe, fico ouvindo as pessoas dizerem de festa de casamento, que é uma grana tremenda investida, passa super rápido, mas tava pensando outro dia em dar uma festa de arromba, pra ter um monte de gente que eu amo num lugar só. Acho que seria a chance de fazer a própria Coraçãolândia. Todo mundo que vive dentro do peito compartilhando um mesmo outro espaço.

_ Acho casamentos um pouco tristes. Pode ser na festa dos trinta.

_ Sei do que você fala. Mas esse negócio de festa dos trinta não parece um novo debut? A cafonice dos 15, 15 anos depois?  Com a obrigação adicional de parecer jovem, descolado e bem sucedido, quando você sabe que precisaria de mais espaço pra viver, está lendo pouco, cheio de confusões adolescentes e já aboliu o sonho da casa de cerca branca com torta quentinha de maçã da vovó Donalda te esperando chegar do trabalho. Trabalho esse que você deveria amar com devoção quase sacerdotal e ser reconhecido e recompensado por ele na mesma medida em que fica abrindo mão dos seus sonhos para fazê-lo acontecer.

_ Tá, você pode comemorar numa festa de casamento. Mas que não deixe ninguém melancólico.

_ Isso, la garantía soy yo.

_ Nosotros.

_ Não seria mais fácil que tivéssemos uns sinais indicando que os caminhos estão mais ou menos corretos?

_ É, mas tem horas em que pedimos um sinal, passa um cometa na janela em plena luz do dia e a gente finge que não vê.

_ Um cometa com um dinossauro em cima.

_ O Beto Carrero pode estar montado no dinossauro em cima desse cometa e ao fundo ouvimos o tuumm tuummm tummm do chicote dele? Seria muito mais fácil entender os sinais assim.

_ Acho que isso é um sinal.

_ De quê?

_ De que a gente precisa crescer.

_ Aposto que seu filho será um travado porque você vai impedi-lo de colorir o sapo de rosa dizendo que sapos são verdes.

_ Ai, cruzes. Trato de dedinho. Teremos filhos na mesma época, serão amigos e colorirão o mundo da cor que quiserem.

_ Feito!

Anúncios

4 comentários sobre “A geografia do afeto

  1. Andando no fio da navalha/em cima do muro.
    Crescer sim, mas sem sufocar a criança que fomos/somos. Ser responsável, ser adulto, tomar as rédias da própria vida, parar de choramingar. Mas ainda ainda assim colorir os sapos de azul turqueza, royal, celeste, tangerina. E as zebras de xadrez por que listras está out.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s