Tô duende!

Estou com faringite e uma voz que me tornaria competitiva na disputa por uma vaga de atendente de tele-sexo. Tomando antibiótico, febril, pensante, querendo sair do corpo e só voltar quando parar de tossir. Eu me sinto um João Bobo, mole e lerda. Porque se ficar doente já é uma porra, sozinha é uma porra total. E nesse clima “estou duende”, porque é exatamente um pequeno ser travesso de touquinha vermelha que a gente se torna quando o nariz entupido impede a pronúncia adequada das palavras, me ponho a recordar causos hospitalares divertidos para lembrar que é no casamento com a gente mesmo que somos impelidos a aguentar o “na saúde e na doença”.

Não achava possível, nem viável, mas na minha estréia em uma emergência de Brasília, fui deliberadamente paquerada. Percebi a olhada do dito cujo quando fazia a ficha na recepção. Terminado o procedimento, sentei na sala de espera, cinco minutos depois, ele se dirige para lá. Propositalmente, havia me sentado em uma cadeira vazia espremida entre outros pacientes (vírus, bactérias, perdigotos, prazer, sou a Nara). Os pacientes iam sendo chamados, as cadeiras esvaziando, pisco, olho para o lado, o barbudo da secada na recepção perguntando sobre o que estava diante de nós:

– Licença, estão demorando muito para chamar?

Não sei quanto minha risada interior foi visível antes de responder, mas aquela pergunta foi o precedente para uma pouquíssimo sexy paquera hospitalar.

– E seus sintomas, quais são?

Pelo andar da carruagem, em dez minutos nosso diálogo passaria a ser pontuado pela palavra catarro acompanhada da descrição colorimétrica.

O sujeito percebeu e tentou deixar a prosa mais festiva. No hospital em questão, ao passar pelo acolhimento, ganhamos uma pulseirinha de papel simbolizando a urgência do caso pela cor. Ele olhou para o meu pulso, olhou para o dele e garantiu a externalização da minha risada:

– Hum, parece que estamos no mesmo camarote!

E nessa hora providencial, fui salva pela Medicina, na forma de chamado do doutor Fulano.

Robôs nas oficinas têm seus parafusos trocados com mais humanização e menos pressa que a utilizada numa consulta de gente. Saí com a receita em tempo insuficiente para o preparo de Miojo. Meu companheiro de camarote estava com o celular na mão querendo saber o diagnóstico e o que mais fosse possível:

– Vamos combinar alguma coisa, me dá seu telefone, ou vou ter que esperar pela seca de Brasília para nos encontrarmos por aqui novamente?

E, em meia medida, o barbudo foi profético, cá estou padecendo com o clima de deserto quatro meses depois. O médico começou a chamá-lo repetidamente, então me vi diante de um esvaziamento mental apenas ocupado pelo meu número de telefone, o real, o verdadeiro, o atual. Queria acabar com aquilo, dei o número, dei tchau. Cruzando a porta de saída, meu telefone toca e não é que já era a figura? Deixou o médico esperando enquanto fazia aquele trâmite, ao menos me senti vingada enquanto classe paciente.

Uma semana depois, meu celular apita. Na tela, o remetente da mensagem é o contato “Emergência Santa Helena”. Gente, que raios esse hospital quer comigo? Ao abrir a mensagem, tudo passa a fazer sentido. O barbudo queria saber se eu já estava boa para sair. Temendo um encontro hipocondríaco agora que esbanjava vitalidade, deixei estar. A ideia de ouvir “Que saúde!” como possível comentário elogioso não me caiu muito bem.

Como boa João Bobo, fico por aqui, mais mole e lerda que comecei, mas joãobobocamente satisfeita por perceber que causos médicos de baixa gravidade são um ótimo ingrediente crônico. A primeira de todas as dores no peito, lá em 2006, é a prova disso.

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5 comentários sobre “Tô duende!

  1. Ô muDeusu! Que vontade de estar aí e fazer aquela sopinha que só vó sabe fazer, um chá curatudo e um cafunezinho! Beijos pra você “sorriso iluminado”!

    • Querida, tenho certeza que carinho de vó e tantas invencionices culinárias deixariam a indústria farmacêutica no chinelo, então é melhor falar baixinho ou te descobrem neste vasto mundo.

      Beijocas de neta emprestada que é muito honrada por isso

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