A poesia é o presente

Amigo G.,

Estou para dividir uma descoberta há um tempo, mas ando ruim com os e-mails devidos. Estou numa fase tão virtualmente preguiçosa e efetivamente cansada, pero satisfeita, que já respondo “sim, vou fazer, daqui 5 minutinhos!’, quando ouço que preciso urgentemente de um Facebook. Uma amiga sugeriu que eu crie logo um perfil porque há muito a ser compartilhado nessa vida de meu Deus e que, se eu não quiser aparecer, use um nome qualquer, sugeriu Joana d’Arc. Veja que custoso, um perfil virtual para mim está equivalendo à Guerra dos Cem Anos.

Lembrei-me de você no trabalho dia desses, era uma notícia sobre Roberto Carlos dando piti continuado com relação ao projeto de lei que permite biografias sem a autorização do retratado. Calma, calma, você não me lembra Roberto Carlos em aspecto algum, é que Marcelino Freire, seu escritor do coração, foi citado na matéria. Fizeram uma retomada da biografia Roberto Carlos em detalhes, de Paulo Cesar Araújo, que o rei da vaidade tirou de circulação em 2007, ano em que Marcelino propôs que todos processássemos Roberto Carlos, pois: “Ele, sim, sempre invadiu a nossa privacidade. A nossa casa, no Natal. E no final de ano. Invadiu o nosso quarto. O nosso motel. O carro e o rádio, etc. e tal. A nossa estrada de Santos. (…)”.

Continuo não conhecendo o Marcelino de Angu de Sangue, o escritor navalha na carne sobre quem você tanto fala, mas confesso ter me divertido com esse que brinca com a monarquia. Essa história toda para dizer que pensei em você e na precisão de dizer sobre sua coragem Guimarães Rosa falando sobre o correr da vida. Enfiar-se na roça, dar um pau na teoria da literatura, no academicismo, naquele desagradável coleguinha que tivemos no Mestrado com a pronúncia pastiche insuportável que escrevia mal em português “por saber muito alemão” não é para qualquer um, meu amigo.

Deixar mulher e filha aguardando em algum lugar do Norte, em províncias que experimentam a barbárie ou são a própria, não é moleza. Você já passou por todos os exílios dantescos, considere esse como o último dos círculos, do último inferno. Esperamos por você em alguns meses com o seu livro em punho, ainda que com bile negra, ainda que haja caroço nesse angu, você tomou coragem de sentar a bunda para escrever nas condições mais adversas possíveis. Amigo, você é o paraense mais mineiro que conheço. Então o destino dessa coisa toda é sabido, só pode dar em azul da cor do mar. Dê um pau nesses coronéis tão logo possa. E, se nada disso couber no poema, faça-o feder ou cheirar.

 Field of Poppies by Vincent Van Gogh - Click Image to Close

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