Hay que endurecer…

Mais uma vez encaixotando o que havia aprendido a reduzir, fazendo as malas, às voltas com protocolos de cancelamento pelos bons serviços prestados que na iminência da falta da cliente amiga tornavam-se ofertas irrecusáveis as quais saborosamente recusei citando Anatel, a ONG do Não me encha o saco com essa onda do você não pode perder, e, por fim,  a mudança de estado, contra a qual não havia argumentos. Eu deixava o Mato Grosso sentindo tudo ao mesmo tempo, pela rapidez das coisas, pela gratidão ao lugar, pelo afeto compartilhado ao longo de oito meses com tanta gente verdadeira que foi capaz de encher a última semana de boas surpresas.

Segui até Goiânia com um casal de amigos, de lá continuaria a viagem rumo à capital federal, agora nova casa. Colocamos tudo que era possível no carro que foi pesado o suficiente para que a polícia da divisa entre Mato Grosso e Goiás nos parasse para uma revista caprichada com três policiais e suas respectivas metralhadoras (não se trata de um exagero narudiano) a tiracolo. Abriram nossas malas, molestaram meu pinguim de estimação, e, não encontrando nenhuma erva além da mate, fomos liberados com um esboço de simpatia. Transposto o primeiro obstáculo, vieram os buracos infinitos daquela GO abandonada à própria falta de sorte. E com os buracos, um pneu a menos e a chegada da noite em longos trechos de estrada sem cidade alguma às margens. Um motoqueiro salvador surgiu do meio do nada e contribuiu para nosso entendimento com o macaco e para o pneu trocado. Andamos um pouco mais, chuva torrencial, Goiânia nunca pareceu tão distante. Tentamos nos aliviar pelo riso, pela criação da ementa de uma disciplina, pela promessa de um jantar redentor na capital.

Deu certo, chegamos, com o GPS falando alemão, indicando um carro robusto no seu painel, naquelas imagens o carro atravessava o rio Araguaia e logo depois uma densa floresta, sem a menor hesitação. Paramos em um lugar bem movimentado, consumidos pelo cansaço, o plano era comer rápido e procurar um lugar para dormir depois. A despeito do glamour das pessoas e das nossas caras amassadas, nos divertimos, mas com alguma pressa para o descanso. Ao voltarmos para o carro, a falta de parte das malas foi constatada. Puta que la merda, um furto completou a viagem, arrematada pelo descaso da polícia e pela horrorosa sensação de salve-se quem puder.

É emputecedor ter suas coisas subtraídas, parei de tentar calcular o prejuízo porque ainda é doloroso, e depois de uma dessas um ogro da Polícia Civil ainda tenta obstruir grosseiramente a entrada na Delegacia para fazer o boletim de ocorrência alegando que a greve ainda não estava totalmente resolvida e que nós deveríamos ter mais consciência (peraê, tivemos parte das coisas que eram significativas para nós levadas, um atendimento ridículo no 190 que passou a bola para a Polícia Civil pela ausência de flagrante sem mandar nenhuma viatura ao local e agora um cara que já nos recebeu tentando um corpo a corpo do lado de fora da Delegacia nos dava o sermão da montanha?). Minha amiga e eu não resistimos à contra-argumentação, ao que o escrivão nos chamou para registro do boletim (a tempo de evitar o desacato à autoridade) e a constatação definitiva que estava tudo perdido mesmo. Eu queria chorar, de raiva, de impotência, de medo, pelo descaso, pelo que foi levado, pelas trinta horas acordada, pela viagem que ainda restava após o périplo de delegacias após algumas DP’s fechadas, mas não saía nada.

Providencialmente, já havia combinado de encontrar minha mãe em Brasília na semana anterior. Só liguei para contar quando o dia amanheceu e constatamos que estava tudo resolvido pela própria ausência de resoluções, o que tinha sido perdido o foi, uma meleca de sensação. Não teve nada melhor que ganhar um abraço sufocado de mãe quando eu cheguei. A proteção que a polícia não ofereceu em momento algum, eu encontrava ali. Termino assim, com um abraço amoroso, ou perderia a ternura diante do emputecimento com a violência humana.

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5 comentários sobre “Hay que endurecer…

  1. Narinha querida, ainda bem que a saída pelas palavras é sempre boa, e olha que saída, adorei o texto. Sem ser Poliana(versão coroa), a mala é o de menos, enfim você está na capital federal e no canal Brasil. É muito bom!
    Rose

  2. Matei a saudade e ainda li uma crônica que me levou da revolta ao riso, porque apesar dos ânimos há um humor e uma ironia refinada neste texto…

    • Venha matar as saudades sempre porque eu também o faço através das notícias das províncias do seu quarto! Há texto sobre sua cidade futura, venha pra cá munido com suas “Ês” porque não é só o ar ressequido. Beijoca mineira

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