Em linha reta

Minha mãe não me deixava ter um videogame, agradeço sempre pelo que me narcotiza não estar confinado a uma tela. Até os 22 anos, achava que o console mais popular da minha infância se chamasse Super Nitendo. Quando descobri a existência de um “n” a mais após ingenuamente tentar corrigir um maníaco por jogos, fiquei um pouco sem chão. Porque quando acreditamos em algo piamente por mais de dez anos da vida, torna-se logo um dogma, profissão de fé. Diante do Nintendo, vi que eu nada entendia desse universo.

Deveria ter fugido mais para o terceiro andar quando criança, a vizinha e eu nos alternávamos entre Mario e Luigi sem que minha mãe sequer sonhasse. Ou economizado na mesada para jogar Donkey Kong na galeria, eu pulava junto com a manete pagando fração de hora para comer bananas num console que a Wikipédia diz ser da quinta geração, o NiNtendo – agora sempre dou essa enfatizada – 64. A verdade é que no fundo eu sempre achei videogame sacal depois de uns minutos, mas a tolerância aumentava um bocado ao passar de fase no Mario, Sonic e Donkey; e, em eras computadorizadas, curtia os jogos copiados em disqueti, Pinball no início, e o Príncipe da Pérsia, tomando poções roxas com seu coletinho despojado e morrendo triturado pela guilhotina que transformava o sangue real em chiclete vermelho se a majestade não desse o pulo certeiro.

Apesar de não desejar com o mesmo fervor o videogame depois de dez pedidos negados, ainda tentei algum repertório entre os pares nesse sentido porque eu também não gostava de Sandy & Junior até o CD do que é “Imortal não morre no final/Vamo pulá”, nunca briguei violentamente para ser nenhuma das Spice, e não tinha paixonite aguda pelos caras do Backstreet Boys, os achava super gays. Ou seja, já estava na contramão do mundo. A tendência da contramão juvenil é que ela vai retornar um dia porque não se cresce sozinho, Chronos felizmente não canibaliza de forma desigual, embora uns se apresentem muito melhores que outros passado o tempo.

O videogame foi me perturbar justamente quando caminhava para passos maiores que as pernas. Talvez deva agradecer ao modernoso XBox 360 pela revolução conjugal que ele ajudou a promover criando um fogo cruzado de diferenças entre um e outro tiro disparados na sala. Pensava em formas variadas de sabotar o videogame da sétima geração sem ser tão óbvia. Durante as iluminações, um pedregulho no console travando o funcionamento da engenhoca chegou a ser cogitado. Até eu me tocar que a auto-sabotagem é tão criminosa quanto o homicídio do amor.

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