O futuro é para frente

Tenho uma certa preguiça de regionalismo exacerbado, ao mesmo tempo em que viver tão longe de casa reforça um pouco do que sou. Talvez porque, para uma parte das pessoas daqui, quem é de fora divide-se em dois grandes grupos: os de São Paulo e os do Sul. O sotaque mineiramente cantado soa indistinto, a branquela do Sudeste já foi considerada paulista por um bocado e, ao realizar-se a real identificação de origem, uma das cidades é dada como opção: Uberlândia ou Uberaba? Nem de Berlândia, nem de Beraba, tampouco da Bosta de Araguari. Minas Gerais, à maneira do agora meu Mato Grosso, constitui um estado-nação em diversidade e tamanho, logo, uma impossibilidade de domínio completo. Enquanto as bordas de Minas conversam com estados tão diversos, o Mato Grosso dialoga, ainda, com outro país.

Tenho aprendido a redimensionar a noção de distante, já que o “pertinho” daqui exige muito mais sola de sapato que o “logo ali” mineiro. E isso é um tremendo exercício anti-rabugice, cada qual tentando driblar os quilômetros ao seu modo. Para as longas viagens, os ônibus que saem rumo às capitais mais próximas – Goiânia e Cuiabá – contam com DVDs (e uma seleção de títulos absolutamente aleatória), balas toffee e companheiros de assento especialmente escolhidos pelo destino para que cada viagem nunca seja igual. Quando a ideia é fazer um trajeto de carro, uma seleção musical duradoura deve ser pensada pelos amigos, bem como os bebes e comes, já que a próxima parada pode levar um tempo. Prefiro seguir com aqueles que me fazem rir, seja pela insistência, seja pela implicância. Com os amigos araguaios, tenho aprendido que gostar do outro é condição sine qua non para fazer pilhéria. Haja rapidez de pensamento para construir um novo chiste a cada almoço conjunto, haja trovadores desajustados capazes de  render histórias do “carajo”.

Hoje o horário eleitoral gratuito me ensinou também uma dimensão política outra. Até então desconhecia primeiras-damas enquanto cargo, quiçá como candidatura. A legenda era clara, duas moças na tela, zoom inicial na linda e loira, “Fulana, candidata à primeira-dama”; depois foi a vez da morena, um pouco menos iluminada, pudera: “Siclana, candidata à vice primeira-dama”. A democracia aqui é mais plena que em qualquer outro lugar, concluí estupefata. Podemos fazer casamentos divertidos, noivo esquerdista, noiva direitista, e não é o amor a desfazer as diferenças do casal, apenas a vontade do povo sendo cumprida. A candidata à primeira-dama exitosa seria aquela pronta para emoldurar qualquer um dos eleitos, o nome precisaria ser sonoro o suficiente para ficar bem com a combinação “ladeada por”, um verdadeiro padrão do colunismo social dos coronéis.

É tão fácil perder-se quando diante do olhar temos um admirável mundo que cada vez mais vai tornando-se estranho e familiar. A ideia era contar a história do meu primeiro pão de queijo, mas havia tanto no meio do caminho que fica para outra hora.

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2 comentários sobre “O futuro é para frente

  1. Mafaldinha,
    O futuro é para frente,mas são as histórias que construímos que nos fazem enxergá-lo.
    Amo você…sempre!!!

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