Segredos de liquidificador

Sou da geração Danoninho, brinquei na praça, bati pique, fiz trenzinhos de roller (a brincadeira ideal para machucar o máximo de joelhos no mínimo de tempo), tive uma Caloi vermelha negociada pela riqueza de R$20,00 quando mudamos para o centro. Talvez essa tenha sido minha transação comercial mais mal sucedida de todos os tempos, pois tinha me livrado de apenas uma das rodinhas auxiliares da magrela e, até hoje, não posso dizer que andar de bicicleta é coisa que se aprende e não esquece mais. Sobre business, meu tino comercial foi afinado na infância (Ok, a Caloi não conta), participei do próspero comércio de acessórios feitos de miçanga, vendi chocolates Garoto sem nenhuma parafina, dei aulas de informática para a família Cordeiro Barcia, tive uma barraca de limonada Espacial inspirada no desenho dos Chipmunks e comercializei, também, bolos de cenoura com cobertura de chocolate entre meus vizinhos.

Naqueles tempos, eu tinha também a minha melhor amiga da vida toda, inseparável, nossos finais de semana eram um revezamento entre a casa dela e a minha. No carnaval, usávamos a mesma fantasia, respondíamos sem pestanejar ao item “melhor amiga” nos cadernos de perguntas, fazíamos combinados esquisitos como nunca tirar cutícula ou fazer sobrancelha. Ela, inclusive, sentiu-se traída quando fiz unha pela primeira vez, em desacordo com tudo aquilo em que a gente acreditava, sabendo-se lá que estranha crença era essa. Crescemos, o tempo e essas gente grandices que nunca tem fácil explicação fizeram com que cada uma fosse para um canto. E esse mesmo senhor tão bonito, fez com que nos reencontrássemos entre memórias do passado e histórias do presente. Foi minha amiga quem me contou que, a depender da volta da maionese caseira na cidade, nosso passado não estaria tão distante assim:

_ Mas, amiga, maionese caseira, e a salmonela, a intoxicação alimentar, o armazenamento? – Fui logo perguntando com minha preocupação asséptica de sachê.

_ Você não tem noção do sabor, Narinha, é outra coisa, uma delícia.

_ Ah, tenho medo, não encaro. Além do mais, isso não é proibido? Você sabe, nunca fui dada às contravenções.

_ Proibido é, mas tem que saber pedir.

Ela conta que da primeira vez foi saltitando, seguiu as coordenadas dadas por outrem, abriu um sorriso e solicitou  que o rapaz caprichasse na maionese caseira. Com desapontamento, ouviu, “não temos isso aqui não, menina!”. Procurou o trailer mais próximo, repetiu o ritual e a resposta foi parecida. Visivelmente desapontada, virando as costas para ir embora, foi pena o que o sujeito do hambúrguer sentiu por ela ao dizer: “venha cá!”. Ele segredou que a desejada maionese caseira estava mesmo no primeiro endereço e falou baixinho as palavras que seriam o abre-te-sésamo.

Menos saltitante, mas não se aguentando de ansiedade, voltou ao primeiro trailer.

– Moço, quero um X-burguer frango NO ESQUEMA!

Ele dá uma risadinha de canto de boca, feliz por poder atendê-la, agora ela tinha a palavra certa.

 

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