Presentemente

Tenho escrito quase nada há meses e entrei num estado de desconhecimento das coisas. Se muito, posso citar o nome de cinco ministros deste governo. É como se fingir que eles não existem, diminua um pouco da toxicidade que me trazem. Tenho ouvido muito Belchior, na verdade há alguns réveillons venho entoando que “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Mas sigo dando uma morridinha de cá e de lá todos os dias. Crescer é violento.

Com vista para o Pão de Açúcar, fui entender da “solidão das pessoas dessas capitais”. Noves fora, estamos vivendo. Com uma barriguinha a mais, uma recuperação pós alcoólica muitíssimo mais lenta, projetos alimentares revolucionários que duram meia semana, lavação de roupa suja durante as folgas e a absoluta segurança de que não há nada garantido.

Ainda assim, a cidade teima em se redimir quando entardece em Copacabana. Por volta das 17h30, na forma de um ventinho fresco com cheiro de mar. Abro bem as janelas para que minha casa espraie. Dou uma respirada bem funda pra que meu coração oceane. E juro por tudo que é mais sagrado que este ano eu não morro.

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As coisas

Meu afilhado querido,

Você ainda não tem nome, seu pai sugere umas coisas bem exóticas da mitologia celta, sua mãe quer te batizar com a alcunha de um sujeito que foi nosso chefe e pede para a gente desvincular histórias, sua tia Lessie me liga para fazer lobby de um nome novo para você e a tia Gabiroba achou por bem te chamar de Luke Skywalker enquanto esse bando de adultos não define as coisas e você cresce. Eu vibro quando sua mãe me escreve “Habemus nome” e também concordo plenamente com ela quando decide esperar mais um pouquinho. Assim como você, seu nome virá no tempo certo.

Queria compartilhar um descobrimento contigo que tem mais urgência que o nome que você terá. Ontem tive um dia de pausa com o amigo Brunão – sua mãe o conheceu quando ainda podia tomar piña colada, viemos comemorar um aniversário meu aqui no Rio e ao voltamos para o quadradinho seu pai foi nos buscar que nem manteiga derretida no aeroporto – e falamos muito sobre a vida. Brunão conseguiu nomear (viu que o nome sempre vem?) uma coisa da qual não gostávamos nas pessoas de um certo lugar. Quando ele disse ver nelas “desinteresse” pela história do outro, quase gritei “eureca”! Ser indiferente às pessoas é de uma feiúra só, padawan.

Engraçado que enquanto te escrevia sobre estar atento ao entorno, meus vizinhos começaram a bater panela para a campanha política e se calaram em dois tempos para o Jornal Nacional. Saiba que pela vida também haverá gente que vai te dar preguiça, mas você será um sujeito bastante interessante e interessado para saber o que fazer com isso. Se você não der conta sozinho, não se esqueça do time de gente grande que está ao seu redor, podemos ser vagarosos e intrometidos ao nomear, mas somos ligeiros no amor.

Contigo vai tudo em paz

Bonica,

Certeza, certeza mesmo a gente não tem de nada nesta vida, mas crescer significa entender melhor os “funcionamentos”, nossos e de quem escolhemos para a caminhada. Aprendi a usar a palavra com a minha irmã. Nas lições diárias de convivência, ela me explicou que ser humano também tem modo de agir e que, diante do conhecimento disso, podemos eleger quem e o que queremos nessa caminhada bastante doida na qual inventamos sentido enquanto passa o tempo.

Você sabe que sempre pensou mais do que deveria e foi ao lançar-se que vieram tantos lindos e, a partir de então possíveis, mundos novos. Às vezes é preciso experimentar uma, duas, até três vezes se necessário para entender que só amor não basta para as relações. E também experimentar relações que podem ser divertidas ainda que sem amor e eventualmente também experimentará uma ou outra porcariada para colocar à prova sua fé nas gentes, mas não se fecha pra nada de bonito que pode chegar não, promete?

Em domingueiras preguiçosas, sei que você se transporta para vários lados. Pensa com carinho num além-mar de amor cheio de revoluções e de futuro, mas também em todas as famílias que já não serão suas. Engraçado isso, né? Abraça o que parece certeiro agora, minha amiga, e acredita nisso que dá no coração. Faça a entrega para o universo, mas não deixe de confiar no seu taco porque até agora está bonito de se ver como você joga.

A nossa casa

Cumadinha,

Sei que por aí anda tudo “bão bissurdo”, mas sinto também que a ficha caiu, a gente está mesmo longe nesta hora em que era pra celebrarmos coladas. Sabe o que é engraçado? Dia desses, amiga querida nossa perguntou se eu sentia que tinha encontrado na nova cidade o lugar onde gostaria de assentar acampamento. Fiquei meio constrangida porque, aqui com nossos botões, a resposta é que ainda não. Mas sabe como é, já vem um emendando com “isso é ansiedade pura, criatura”. Pode ser, mas também pode ser que eu saque muito rápido o que me convém. Quando te conheci de camisa de caveirinha e ponta de cabelo azul naquela madrugada modorrenta, você me caiu bem na hora, assim à vistinha, “na orelhada”, como dizia um moço numa lotérica de Juiz de Fora que queria desconto na conta de luz por pagar no dinheiro. Sei que você esperou notar que eu andava como um pinguim para gostar de mim, mas isso não levou tanto.

A verdade é que às vezes sinto inveja dessa gente que já consegue olhar para o panorama do futuro com tudo bem esquadrinhadinho, sabe? Eu ainda sou pontuada por tantos “sei lá”, mas no meio deles também está clara a parte do que não serve, o que já deve ser um grande caminho para chegar ao que serve. Sabe o que me peguei fazendo esta semana? Criando um resposta super agradável para essas perguntas de que tal sua nova vida. Uma atendente de telemarketing poderia responder por mim. No protocolo 10/15 do setor nova vida não entram as violências urbanas diárias que temos presenciado, Loli e eu, algumas nada metafóricas. A gente anda com fé e ela não costuma mesmo faiá. Isso faz parte do que ensinaremos para a Lavínia/Miguel quando ela(e) nascer, explicaremos que nossa casa habita dentro da gente. E que, nesse lugar, os afetos são todos vizinhos de porta.

Avante!

O primeiro cabelo branco tinha aparecido há alguns anos, descoberto por aquele sujeito de falar chiado que sempre se achou divertidíssimo com trocadilhos péssimos que funcionavam para ganhar concurso cultural de marca de biscoito, sobre quem ela não podia ouvir falar hoje em dia. Pediu pra que o tipo fizesse uma boa ação em lugar de marcar “seu cabelo branco – hahahaha”, que arrancasse o fio e sumisse com ele em algum lugar da imensidão do “o que ela estaria fazendo ali?” daquele quarto.  Depois de meia dúzia de piadas sem graça, ele o fez. E, tal qual assombração, o fio branco, já fora da cabeça, reaparecia em momentos distintos. Ela agarrou o branco, abriu a janela, mirou Copacabana, e pensou: vá e não volte, ó, tentativa de crepúsculo da minha juventude!

O tempo correu, um branco ocasional pintava vez por outra no meio daquela cabeleira mais vasto que a mata atlântica, segundo definição de companheiro muitíssimo mais gentil. Havia desenvolvido uma incrível técnica de autoengano: arrancava o fio e assobiava para o vento, assim como se nada tivesse passado. Aprendeu com uma amiga que o nome disso era “fazer a egípcia” e você pode aplicar quando o mundo está caindo ao redor e se está bastante seguro de não querer participar da piração do outro. Basta segurar a cara de paisagem, não esboçar manifestação como se o gato que come o rato que roeu a roupa do rei de Roma tivesse comido também sua língua. Sobre a origem da expressão, nunca havia buscado em um tratado de filologia, mas pensava nas imagens de egípcias absortas trabalhando no alinhamento perfeito das mãozinhas, como se nada além fosse realmente considerável. Era assim que lidava com o um fio branco de vez por outra, assegurando a sua desimportância.

Eis que foi articulada uma rebelião interna por tantos anos de ignorância do filho único branco. Nenhuma técnica advinda do Egito Antigo daria conta de lidar com o que estava por vir. Foi organizar o lado esquerdo da cabeleira com um grampo e saltaram três. Ainda assustada, ela resolveu mexer do lado direito, como quem tem medo do que pode encontrar. Veio daí um curtinho, recém-nascido, que ela arrancou com pinça antes de sair na noite de sexta levando três irmãos saudáveis no pacote. Tentava gerir a crise assim, fio a fio, pois, nessa altura do campeonato, qualquer preocupação excessiva poderia virar pé de galinha.

Para meu quadradinho

Brasília,

Talvez eu nunca te agradeça o suficiente por ter carimbado de vez o meu passaporte da autonomia nessa viagem que começou lá em Mato Grosso. Foi o coração do Brasil quem cuidou do meu. Numa cidade com tanta reta, descobri que eu não tinha a menor obrigação de ser linear. Com seus seis meses de seca e outros seis de água, aprendi a curtir o que tem pra hoje. Ainda que tenha me visto reclamando da seca para, um mês depois da virada da estação, dar uma lamuriada diante da chuva. Perdoa, Brasília, é que sou muito humana e precisei logo do concreto para realizar isso.

Já desgostei de você algumas vezes, já tentei te analisar em outras tantas. E você, tal qual um parceiro que pressente a iminência do rompimento e tenta reverter o quadro, me aparecia com aquela imagem que me fazia pensar que a nossa relação estava no caminho do altar ao descortinar o panorama Catedral, Esplanada, Congresso. Era eu querer terminar, dona Brasília, que a senhora safadamente tratava de colocar aquele pedaço do Eixo Monumental diante de mim, em noites fresquinhas. Eu abria os vidros do carro, cantava bem alto o que tocava no rádio e sentia o coração em paz.

Eu me lembro de atravessar a 107 Norte dando uns saltinhos com minhas amigas na faixa de pedestre ao ficar risonha de Beira Bier pela primeira vez. Era tão bom não conhecer ninguém e, ao mesmo tempo, já ter tanta cumplicidade com aquele bando com quem eu cresci junto nos últimos três anos. Nós nos cuidamos quando os tempos foram difíceis, celebramos tanta coisa boa e sobrevivemos (sem multa) aos meus vizinhos que faziam reclamações dos nossos encontros para o Seu Orlando alegando haver “muita felicidade no 202 A”. Poderia haver elogio maior?

Espero que meu novo lar, lá no Rio de Janeiro, possa receber acusação semelhante. E espero que você esteja sempre aqui pra mim, com esse céu que é seu mar, essa lindeza de chapar as gentes e que cuide da minha trupe candanga com o amor que eles merecem até nosso próximo encontro.

Foto de Augusto Areal
Foto de Augusto Areal

Fuerza Bruta

Ela me contava com um risada orgulhosa e previamente carente do dia em que teve alta na terapia. Durante um ano, uma vez por semana, ia passar a limpo a maquinação infinita que era a sua cabeça. Ficava satisfeita por transformar em verbo o vivido, por tentar achar palavra precisa para o embaraço que às vezes levava no peito, por conseguir rir do que, por não ter solução, resolvido está. Ademais, havia encontrado um interlocutor bacana que teve a sensibilidade de socorrê-la quando a peteca parecia cair e acercou-se do ponto que efetivamente pegava, recorrendo à mitologia, à poesia, a Caetano.

Uns meses antes de ouvir com firmeza que o trabalho que faziam “estava concluído”, começou a questionar se manteria a sanidade diante da proposta de que as sessões fossem mais espaçadas. De 15 em 15 dias passaria a frequentar o horário que um dia havia sido semanalmente seu. Havia uma recorrência na playlist da sala de espera, sinal de que sempre se atrasava a mesma quantidade de tempo: chegava ao som de Angie, dos Stones, e ia embora com Dancing Queen, do Abba.  E talvez saísse mesmo meio assim, young and sweet, ainda que não tivesse seventeen. Por mais que parecesse não ter nada pra dizer, vinha palavra.

Tanto que, ao deparar-se com a primeira tentativa de fechamento de ciclo na terapia, relutou de maneira involuntária, porém bastante consciente. Ganhou tempo para manter aquele espaço de fala até receber uma dispensa oficial, algo enfática e igualmente bonita. Ela fazia uma consideração com risada: “Foi meu primeiro pé na bunda vindo do terapeuta”. Pensou que deveria estar mesmo mais forte do que imaginava. Sabia que tinha ganhado uma nova liberdade, ainda que tateasse a maneira de utilizá-la.